Sempre que nos referimos ao Haras Rosa do Sul, certamente deveríamos “tirar o chapéu” e reverenciar essa farda em sinal de respeito, honra e admiração. Uma “rosa” consagrada no período de sua inesquecível atuação no turfe internacional e que marcou presença também no Paraná..
Fundado, em 02 de abril de 1972, pelo empresário Matias Machline (que já tinha cavalos de corrida desde os anos 60 – Stud São Sepé e posteriormente Stud 1º de Janeiro), o haras deveria funcionar apenas como um hobby para seu proprietário. Porém, o Haras Rosa do Sul transformou-se rapidamente em um dos maiores e mais vitoriosos centros de criação de cavalos de corrida do Brasil em todos os tempos.
Matias Machline e seu filho Carlos Alberto (foto: Porfirio Menezes)
Gaúcho de nascimento, Matias Machline incorporou o nome de sua mãe ROSA à região SUL – de sua origem, batizando seu haras, portanto, de HARAS ROSA DO SUL.
Sua sede estava localizada em Itatiba a pouco mais de 100 quilômetros da cidade de São Paulo, e com um plantel de aproximadamente 100 éguas já começou grande para um simples hobby. Adquiriu ventres e garanhões importados de alta linhagem dos Estados Unidos, Europa e Argentina. Também importou animais que fizeram grande campanha no Brasil antes de seguirem para a reprodução, (ex. PRUDENT-ARG G2, POSTERITÉ-ARG G2, MISS NORMA-ARG G1, ANALOGY-USA G1) em grandes investimentos financeiros.

Contando com os reprodutores TUMBLE LARK-USA (1967 – T.V.Lark-USA e Tumbling-USA por War Admiral-USA), GAY GARLAND-GB (1964 – Shantung-FR e Festoon-GB por Fair Trial-GB), ANALOGY-USA (1972 – Revierwer-USA e La Nenê-ARG por Aristophanes-GB), RESTLESS JET-USA (Restless Wind-USA e Sittin On Ready-USA por Endeavour-ARG) – BLUE DIAMOND-IRE (1971- Diatome-GB e Nimbya-FR por Nimbus-GB), PURPLE MONTAIN-USA (1982 – Grey Dawn-FR e Aldonza-USA por Bold Bidder-USA) e coberturas de outros garanhões, o sucesso do haras foi imediato, estrondoso e duradouro – removendo rapidamente a etiqueta de um entretenimento; e incorporando a marca de empreendimento bem planejado com tecnologia moderna e eficaz. E o haras de Matias Machline foi se desenvolvendo mais e mais, sempre com o apoio de toda a família Machline.
Para relacionar todos os bons cavalos produzidos pelo Haras Rosa do Sul, certamente seriam necessárias várias páginas. Só para citar alguns inesquecíveis craques ganhadores de Grupo 1, de sua criação, podemos facilmente lembrar de BIG LARK, DARK BROWN, DAMPING WAVE, EMBOUT, MET BLADE, MEU GAUCHO, SUBARU PURPLE, KILL ME, SOBERBO e outros tantos. Os animais do Haras Rosa do Sul venceram GP Brasil, GP São Paulo, GP Latino Americano, Tríplice Coroa, Taça de Prata e muitas outras provas clássicas. Com mais de 100 animais em treinamento venceu várias vezes as estatísticas de criadores e proprietários.
Antes que digam que esqueci da líder Tríplice Coroada EMERALD HILL (1974 – Locris-FR e Imbuia por Sunny Boy III-FR), invicta no Brasil em nove corridas, sendo sete vitórias em provas de grupo 1 – exportada e vitoriosa nos EUA, lembro que era de propriedade do Haras Rosa do Sul, mas de criação da família Seabra. Aliás, além de criador, Matias Machline era um grande adquirente de bons animais. Entre outros adquiriu a velocista argentina SOLY LUZ (1973- Solazo-USA e To Night-ARG por Irmac-ARG) – vencedora no mesmo ano do ABCCC G1 – em São Paulo e do GP Major Suckow G1 – na Gávea em recorde. De meu pai, lembro que adquiriu por alta soma na época, o potro ELVIC (1976-Galesian-GB e Guita por Kaconio) – vencedor do GP Turfe Paranaense de 1979.

Emerald Hill – Capa da Turf e Fomento
O sucesso seguiu crescendo além das fronteiras brasileiras, com a compra na Argentina (de porteira fechada) do “Haras Indecis”, fazendo surgir o HARAS ROSA DEL SUR, e criando ótimos animais. Alguns foram trazidos ao Brasil como RAFAGA SUREÑA-ARG (1º GP São Paulo-G1) e UNKIND-ARG (1ª GP Presidente da República-G1); e outros que não vieram ao Brasil, fazendo campanha em Buenos Aires e posteriormente nos EUA, como as éguas Grupo 1 – TACITURNA BAR, JABALINA BROWN, LAURA LY.

TACITURNA BAR em San Isidro (foto: JC Argentino).
Mas, para relacionar esse haras ao Paraná, lembro que Matias Machline manteve uma das “pétalas” do ROSA DO SUL aqui em nosso Estado. Montou mais um moderno seguimento brasileiro de seu haras (na época já tinha, além de SP, outro no Rio Grande do Sul), agora no Município de Piraquara, região metropolitana de Curitiba, em 80 alqueires de terras virgens, onde fazia a recria da maioria dos potros nascidos em sua matriz.

HARAS ROSA DO SUL no Paraná (Arquivo)
Ao contrário de muitos haras que se estabeleceram próximos a Curitiba, mas não tiveram uma ligação ou contribuição efetiva com o Jockey Club local, o elo de Matias Machline com o Paraná era muito forte e merece ser exaltado. Sua empresa “SHARP DO BRASIL” foi patrocinadora, no Tarumã, por vários anos, do GP Brasil de Amadores. Também havia anualmente a penca denominada GP Matias Machline em 800 metros no Tarumã. Além disso, um almoço oferecido pelo Haras Rosa do Sul às delegações visitantes era tradicional na semana do GP Paraná.
O Haras Rosa do Sul inclusive mantinha uma cocheira no Tarumã com vários animais treinados por Emilio Gagno, depois na sequência Alfredo Gonçalves Rivera, Omario Reichel e Luiz Carlos dos Santos. Venceu boas provas por aqui, como as vencidas por ESTAFFETE (1977- Tumble Lark-USA e Flamme-ARG por Dalry-GB) e IN-LAW (1981 – Big Lark e Faras-ARG por Gay Garland-GB) na Taça Pinheiro de Ouro G3 de 1980 e 1984. No Tarumã venceu também, em mais de uma oportunidade, as estatísticas de proprietários e criadores.
Na Fazenda Rio Grande mantinha vários potros com Lauro Cordova de Liz, a serem preparados para as pencas. Com estes venceu o GP Turfe Paranaense de 1980 com EQUATION (Tumble Lark-USA e Chingola-ARG por Anaram II-FR) que posteriormente foi ganhador de Grupo 1 e líder de geração em São Paulo; e em 1981 venceu com FRONTEIRIÇO (Analogy-USA e Exelent-ARG por Hot Dust-USA).

FRONTEIRIÇO (A.Bolino) vencendo Turfe Paranaense (foto:JCPR/Turf e Fomento).
Dali também saiu a “máquina” que deixou seu nome na história da cancha reta – JATO D’ÁGUA (1982- Tumble Lark-USA e Dona Magee-ARG por Dare-PER) vencedor da famosa e importante “Penca de Santa Bárbara/RS” em recorde para os 1000 metros. Exportado aos Estados Unidos, mesmo com alguns problemas locomotores, venceu em Santa Anita por vários corpos no tempo de 75seg para os 1300 metros, além de outras provas na “terra do Tio Sam”.

JATO D’ÁGUA em Santa Anita/USA (Arquivo USA)
Meu pai tinha uma boa relação com Matias Machline e teve alguns bons animais de criação do Haras Rosa do Sul, entre eles o LR – ganhador clássico – BACCO (1974 – Tamino-GB e Idola por Melody Fair-IRE); e em sociedade com Francisco Farias de Souza, o fenômeno das retas e invicto BIRRO (1974 – Tamino-GB e Frigia por Melody Fair-IRE), vencedor do GP Cidade de Carazinho (correndo três “batidas”) e vencedor do Velocidade do GP Paraná. Inclusive, esse cavalo foi citado pelo ator Lima Duarte (turfista de carteirinha), num dos capítulos da novela Roque Santeiro, como um fenômeno da velocidade.
Para ilustrar tenho duas passagens marcantes em minha vida turfística com animais de Matias Machline. A primeira de derrota, em 24/11/1974 quando da disputa do GP Wembley em 2200 metros – preparatório para o GP Paraná. Competiam na prova, entre vários bons corredores, DON TIBAGI, de propriedade de meu pai João Carlindo e o argentino TAJANTE, de propriedade do Stud 1º de Janeiro (precursor do Haras Rosa do Sul) de Matias Machline. Ao final da prova TAJANTE dominou DON TIBAGI em cima do disco indo a vitória para Matias Machline após a confirmação do difícil fotochard. Tristeza para um garoto na época.
Entretanto, a segunda foi de imensa alegria, pois dez anos mais tarde, em 12/08/1984, na final da Taça de Prata, a “forra” chegou também no fotochard. EMPIRE DAY de propriedade de João Carlindo e de Jamil Samara venceu uma intensa batalha contra uma forte parelha do Haras Rosa do Sul (IMPRUDENT LARK e IMPOSSIBLE EYES). E a vitória veio também após uma decisão muito demorada da Comissão de Corridas: 1º EMPIRE DAY – 2º IMPOSSIBLE EYES. Nada mudaria para o Haras Rosa do Sul, mas para nós, vencer esse majestoso haras tinha, talvez, uma importância maior do que vencer a própria prova. Uma verdadeira glória que mereceu uma “cambalhota” de meu pai na pista de grama.
Sinto-me um privilegiado de ter sido testemunha ocular de muitas vitórias dos animais de Matias Machline, treinados, além dos profissionais locais, pelos mestres Milton Signoretti, Abadio Cabreira, Pedro Nickel, Selmar Lobo (inclusive sua primeira vitória foi para a farda do Rosa do Sul); e pilotados pelos brilhantes José Fagundes, Antônio Bolino, Selmar Lobo, Edson Amorim, Holmes Freitas, Eduardo Le Mener Filho, Albenzio Barroso, Ivan Quintana, Loacir Cavalheiro, Luiz Duarte, Nelito Cunha e outros fenômenos das rédeas, que tiveram a honra de envergar essa inesquecível farda. E sempre com a supervisão veterinária dos grandes mestres Dr. Alceu Athaide, José Luiz Pinto Moreira, Dr. Celso Bertolini e Dr. Thomaz Wolf.
O amigo do Jockey Club do Paraná – Matias Machline, nos deixou em 1994, mas seu exemplo de empresário de sucesso; homem arrojado e bondoso, segue sendo lembrado através da merecida homenagem feita pela ABCPCC, ao nominar a principal prova da Copa dos Criadores com o seu nome; inclusive vencida no último ano pelo nosso craque paranaense OBATAYE.
O vitorioso Haras Rosa do Sul seguiu por mais alguns anos com a administração de seu filho Carlos Alberto Machline e conseguindo outros ótimos resultados (ex. RAFAGA SUREÑA – 1º GP SP de 96), mas, infelizmente para o turfe nacional, chegou ao final de suas atividades. Entretanto, o seu fundamento genético colaborou por muito tempo para a constituição do plantel de vários outros haras, servindo até os dias atuais como uma grande base formadora de CAMPEÕES.

RAFAGA SUREÑA (L Duarte) segura pelos paranaenses Aramys Bertholdi e Alceu Athaide após vencer o GP SP de 1996. (foto: Porfirio Menezes)
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