A conhecida expressão “por as mãos na massa” que significa envolver-se diretamente na execução de uma tarefa, demonstrando iniciativa, é usada figuradamente para indicar muito esforço, trabalho duro ou grande empenho próprio para obter resultados.

Em algumas oportunidades falamos e enaltecemos grandes criadores paranaenses. Aqueles que investiram imensos valores monetários em áreas nobres, em garanhões e ventres selecionados e em grandes equipes de trabalho; sempre com a finalidade de criar o melhor cavalo de corridas possível, e que, certamente, muito colaboraram para o crescimento do PSI no Paraná.

Entretanto, também certos criadores paranaenses, não com tantos recursos, mas com muito trabalho e dedicação exclusiva, conseguiram obter sucesso e crescer nessa difícil atividade. Alguns que colocaram as “mãos na massa” e tornaram a criação de cavalos de corrida um meio de vida.

JÚLIO MOLETTA, um dos 10 herdeiros de Antônio Moletta Filho, devido à predileção de seu pai pelo turfe, desde criança, sempre esteve ao lado dos cavalos de corrida. Já aos oito anos, montava cavalos em algumas provas de cancha reta. Porém, a genética começou a “discordar” da sua vontade, pois Júlio cresceu na adolescência, ganhando peso e altura, o que fez com que a sua carreira de jóquei chegasse rapidamente ao final.

JULIO MOLETTA, aos 25 anos começou, então, a criar cavalos em São José dos Pinhais, atividade também exercida pelos irmãos Clemente e Humberto Moletta. Embora com local próprio para criar, nunca registrou um haras, e sim, se registrou no Stud Book Brasileiro como criador avulso. No início, a inexperiência e o desconhecimento foram um grande problema. Contou-me, certa vez, que cuidou da primeira reprodutora que teve durante 29 noites seguidas antes do parto da mesma. Isso, por não conhecer os sinais iniciais que normalmente a égua mostra antes de parir. Embora essas 29 noites de vigília tenham sido desgastantes, não complicaram o deslocamento de Júlio Moletta de sua residência, já que sempre morou em casa localizada dentro de seu haras. Com as orientações do notável veterinário Dr. Heliodoro Antônio de Oliveira Duboc foi se aprimorando na criação.

                Haras de Júlio Moletta

Outra dificuldade que viveu na época era que, diferentemente de hoje, conseguir comprar éguas para a reprodução não era nada fácil. Porém, aos poucos foi conseguindo aumentar o plantel, chegando a dez éguas – uma média que praticamente se manteve durante todo o seu período de criador.

O serviço do haras era em sua totalidade realizado por Júlio, sua esposa e seus filhos. Muito raramente teve funcionários e Júlio, nunca alheio ao trabalho, realmente colocava a “mão na massa” para “tocar” o haras.

A primeira égua que teve foi JASTA (1952- Cumelen-ARG e Espartana-ARG por Yeomanstown-GB) que prenha de Hurcade, um filho de Burphan-GB, produziu o primeiro potro de Júlio Moletta, chamado CADIZO (1965), que, em fato raro, venceu duas corridas no mesmo dia no Tarumã.

Iniciou usando os serviços do reprodutor PINGA FOGO, um dos raros filhos diretos do francês Formastérus. Embora uma grande esperança, PINGA FOGO produziu apenas filhos limitados.

Seguindo em frente no seu propósito de criar bons cavalos, enviava suas éguas para serem cobertas pelos reprodutores do Haras Paraná como PINHAL – que produziu para Júlio, entre outros a inesquecível JOTINHA – vencedora de seis provas nos hipódromos oficiais e incríveis 33 vitórias nas canchas retas (seletivas e finais).

No final da década de 80, numa negociação com o hipólogo Atillio Irulegui envolvendo três potros numa troca, Júlio trouxe para o haras o cavalo ganhador de Grupo 2 – XEMIUR (1976 – Pass the Word-USA e Elamiur por Xaveco) para ser o reprodutor. Produziu para Júlio Moletta: OTIMÃO (8 vitórias), URPILLON (Clássico no Tarumã), QUINTANO (7 vitórias), TAYANE (4 vitórias), TEMPESTY (6 vitórias) e outros bons filhos, porém sem grandes destaques.

Também o reprodutor URT do Haras São Joaquim foi bem utilizado nas éguas de Júlio Moletta, produzindo QUANTREL (Grupo 2 com 16 vitórias – 1º GP Presidente da República no TR), ORANGO (8 vitórias), PIRAIB (ganhadora clássica no Tarumã), OIGALÊ (8 vitórias – ganhadora clássica no Tarumã), NOVO URT (6 vitórias), MODISSA (4 vitórias), JOTAEME (5 vitórias), entre outros.

Júlio Moletta também aproveitou os serviços de vários outros reprodutores para suas éguas e conseguiu criar bons animais como RICA RAINHA (Indaial) – 3º no Diana- Grupo 1; CASTELO NEGRO (Braseante-ARG) – 13 vitórias – 1º G3; CRY (Ventaneiro) – 4 vitórias com 4º em Grupo 2; – SPECIAL DAY (Cacao-ARG) – 2º GP Paraná -G1; CAÇADOR (Hurcade) – 4 vitórias consecutivas no TR e GV; TÃO GRANDE (João Grande) – 8 vitórias; LELÉ DA CUCA (Slap Jack-USA) – 5 vitórias; JOANA COLONY (New Colony-USA) – 7 vitórias; FINA BALA (Dodge-USA) – ganhadora de pencas; JOANA NEGRA (New Colony-USA) – 8 vitórias e muitos outros.

Por falar em New Colony-USA; Júlio Moletta, enviando a ele a égua Dawn’s Girl (Henri le Balafre-FR) criou em 1991 a ótima ganhadora de Grupo 2 com 6 vitórias – BIGCKOA – vencedora das segunda e terceira provas da Tríplice Coroa Paranaense, e segunda colocada na primeira prova. Uma égua que marcou seu tempo no Hipódromo do Tarumã.

  BIGCKOA (E.G.Cruz) – 12/08/1994 – foto:JCPR

Em 2009, já no final de sua criação, Julio Moletta criou JUJU BELL (2009 – Onward Royal e Juliana Bell por New Colony-USA) – Grupo 2 que após vencer 09 corridas (LR) e obter várias colocações clássicas em provas de grupo para o Haras Rio Iguassu – enviada à reprodução já produziu ganhadores de provas de grupo.

Assim, foram muitos os produtos criados nos muitos anos de trabalho de Júlio Moletta em seu haras. Esse criador nunca ficou com algum potro, sendo que todos eram vendidos devido ao bom conceito e boas amizades que sempre teve no turfe paranaense e brasileiro.

 JUJU BELL vencendo o Clássico Pres. Luiz Oliveira Barros (LR) em 2015 (foto: Porfírio Menezes)

João Carlindo, meu pai, foi um dos grandes clientes de Júlio Moletta adquirindo quase 30 potros no total. Alguns fizeram campanha com a sua farda e outros foram revendidos, inclusive um bom lote de potros que adquiriu de Júlio Moletta foi enviado para um leilão no Paraguai.

Lembro de alguns em épocas distintas como FRANCISCANO (1972- Lovelace e Ulisca por Xasco), o primeiro que comprou e que venceu com ele 5 provas em Cidade Jardim e Cristal; QUANTREL (1977 – Urt e Xinena por Nordic-FR) – comprado potrinho por meu pai foi revendido ao Haras Tamandaré vencendo 16 provas (G2); e EDICOA (1994 – Critique-USA e Seat Belt por Executioner-USA) vencedora da Penca Formula 1 – GP Haras Santa Rita da Serra em 1997. Também, na década de 70, adquiriu três potros de uma só geração, o que proporcionou a Júlio Moletta, com o dinheiro da venda, comprar uma área vizinha a sua e dobrar o tamanho de seu haras (outros tempos…).

EDICOA (B.Oliveira) vencedora da penca F1 em 17/02/97 (foto JCPR)

A minha ligação com Júlio Moletta é de grande respeito e amizade. Vários cafés com boas prosas já tivemos em sua casa. Uma história bacana foi que em 2008 ele me chamou ao haras para oferecer o QUARTZO REAL (Fahim-GB e Ninfa Real por Braseante-ARG) que ainda estava no haras, pois era o único da geração que não teve algum interessado, e consequentemente não havia sido vendido. Afinal, apesar do bom porte e tipo físico, era muito bravo (filho de Fahim…) e tinha um “casco encastelado” e os “joelhos tortos”, sendo rejeitado por todos que o examinaram. Diante da minha recusa de compra, então, me fez a proposta de fazermos uma sociedade. Ele entraria com o cavalo e eu ficaria responsável pela sua manutenção no hipódromo. Júlio estava ansioso para ver o QUARTZO REAL longe do haras, pois em duas oportunidades, os coices do potro em seu criador chegaram a machucá-lo gravemente. Pela amizade e por considerar ser um belo cavalo e, é claro, a não saída imediata de dinheiro de minha conta, aceitei e o levei para o Jockey Club.

E não é que QUARTZO REAL se mostrou bom cavalo? Após vencer facilmente duas corridas em suas duas únicas apresentações no Tarumã, correndo com a farda do “stud” de meus filhos, venceu também cinco corridas nas cinco primeiras atuações na Gávea, sendo, uma delas, uma prova especial. Essa minha sociedade com Júlio Moletta se mostrou de muita sorte já que na estreia de QUARTZO REAL, ele, com vários corpos na frente dos demais, nos últimos metros tropeçou feio, quase caindo, tendo o jóquei Nelson Souza cruzado o disco agarrado ao pescoço do cavalo, caindo um metro depois da chegada. Das mais de 1200 vitórias que obtive em minha vida essa foi uma das mais incríveis, e também das mais comemoradas. Uma vitória com história para contar.

QUARTZO REAL – Apesar do tropeço ainda cruzou o disco em primeiro (fotos:JCPR)

Hoje JÚLIO MOLETTA, aos 88 anos, desfruta da aposentadoria dos seus tempos de criador de cavalos de corrida, pois deixou de criar em 2010, sendo a sua última reprodutora – JULIANA BELL, já citada acima.

Residindo em sua casa, na mesma área de outrora, onde as cocheiras e os piquetes alojavam muitos animais de sua criação – mas que hoje estão vazios – vive uma vida tranquila e equilibrada, recebendo os amigos para um café e boas histórias; e com o sentimento de dever cumprido, já que com muita dedicação desenvolveu seu haras ao lado de sua residência, criou bons animais, conseguindo respeito na atividade. Certamente um orgulho também para seus filhos, pois com as “mãos na massa”, através do cavalo, conseguiu dar uma vida respeitável a sua família. Um fato não exclusivo de Júlio Moletta, mas também de vários outros pequenos criadores que, como ele, não apenas tiveram a sua casa ao lado de um piquete com éguas e potrinhos, mas as suas vidas intimamente ligadas aos mesmos.

Os sócios seguram QUARTZO REAL após a sua 2ª vitória

Júlio Moletta e Carlos Carlindo

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