O Império Romano, que no século VI AC já tinha um hipódromo no centro de Roma, foi uma das civilizações mais poderosas da história, estabelecendo um domínio que perdurou por muitos anos. Sua influência e força mundial ascendeu rapidamente e se consolidou através de seu total domínio sobre outras nações. Entretanto, gradualmente, o Império Romano foi perdendo força. Sua queda ocorreu devido a muitos fatores como instabilidade política, administrações equivocadas, impopularidade e várias crises econômicas, fechando seu ciclo de protagonista com o último imperador Rômulo Augusto em 476 DC.
Mas, o que isso tem a ver com o nosso turfe?
Guardadas as devidas proporções, sempre tive o Jockey Club de São Paulo como um IMPÉRIO de domínio do turfe brasileiro. Convivi desde criança com esse grandioso hipódromo, um verdadeiro orgulho nacional. Como no Império Romano – a hegemonia de Cidade Jardim era indiscutível, dentro da atividade turfística do país. Isso devido a grandiosidade, seriedade e profissionalismo de suas administrações. Porém, o tempo passou e seu protagonismo “despencou”. Costumaz detentor da Medalha de Ouro entre os quatro principais hipódromos nacionais, hoje não é merecedor do “bronze”.
E o que foi que aconteceu com o Jockey Club de São Paulo para essa “queda livre”?
Difícil dizer, porém quem, como eu, conheceu o quão extraordinário era o Jockey Club de São Paulo, certamente guarda muitas boas lembranças e uma incredulidade dos seus dias atuais. E para quem não viveu essa época, vou tentar, através da narração de alguns fatos que conheci e presenciei em Cidade Jardim, estimular a sua imaginação.
Sabemos que desde os primórdios de seu funcionamento, mesmo com alguns embaraços pelo caminho, o Hipódromo Paulistano foi evoluindo e evoluindo, ano após ano, chegando ao seu apogeu na década de 90; sendo um local respeitado nacionalmente e recebendo a visita de artistas, presidentes e demais autoridades e principalmente grande público de admiradores e apostadores em suas maravilhosas reuniões semanais. Um clube extremamente forte que funcionava “redondinho” alcançando sucesso, respeito e a consequente liderança nacional na atividade.
Minha relação com esse hipódromo começa ainda criança, no final da década de 60, quando meu pai lá se estabeleceu, vindo do Rio de Janeiro, para dar continuidade a sua profissão de jóquei. Naquela época o Jockey Club de São Paulo já era uma potência e não parava de evoluir com grande presença de público. Assim, minhas primeiras lembranças de infância têm o Hipódromo de Cidade Jardim como palco e um dos ambientes mais deslumbrantes e inesquecíveis para um garoto cujo pai, como nos filmes de aventuras, era um herói que aparecia montado em seu belo cavalo. O parquinho infantil, ao lado da última arquibancada popular, frequentado por muitas crianças em dias de corridas, era o local onde brincava e assistia meu pai montar.

Parquinho – minhas primeiras lembranças de CJ (Foto: Porfirio Menezes)
Ambulatório Médico, Odontológico e Fisioterapia
Um benefício concedido aos profissionais, funcionários e suas famílias eram os serviços médicos. – Em 1969, minha mãe, grávida do terceiro filho, fez todo o acompanhamento pré e pós-parto com médicos do Serviço Médico e Ambulatorial do Jockey Club de São Paulo. Recebia orientações, fazia exames periódicos, acompanhamentos antes, durante e após o nascimento de minha irmã. – Tudo isso sem nenhum custo para meu pai. Após o parto ainda levou para casa de presente um grande número de fraldas e um enxoval completo como presente do Jockey Club de São Paulo.
Escola Jockey Club de São Paulo
– Já na década de 70, fui matriculado na modelar Escola Jockey Club de São Paulo para ser alfabetizado – aquela “escolinha”, erguida em 1952, num projeto do arquiteto francês Henri Sajous e localizada quase dentro da vila hípica de Cidade Jardim. Na época de propriedade do Jockey, e totalmente mantida por ele, era destinada aos filhos dos profissionais e funcionários do clube. Com quase 4.000 metros quadrados tinha uma bela arquitetura, com boas instalações e reconhecido na cidade como uma escola de grande qualidade – que mantinha em sua biblioteca mais de oito mil volumes. De 1952 a 1976 com pré-primário e primário, e a partir de 1977 também o segundo grau profissionalizante (antigo colegial). À noite curso primário para funcionários adultos.
Além da qualidade de ensino, muito era oferecido de maneira gratuita para os alunos: uniforme, material escolar, lanches, médicos, dentistas, cabeleireiro, atividades externas esportivas/culturais, oficinas profissionalizantes e transporte escolar que me buscava na porta de casa e ao final do dia me deixava no mesmo lugar. Circulando pela cidade, os ônibus ainda faziam um “marketing” para o Jockey Club.

Escola Jockey Club de São Paulo onde estudei (Foto: Porfírio Menezes)
Nos primeiros 25 anos de atividades a Escola Jockey Club de São Paulo atendeu uma população escolar de mais de 12 mil alunos; forneceu 2.500.000 lanches, 615.000 peças de uniformes e 800.000 unidades de material escolar (livros, cadernos, etc.). Uma instituição educacional de caráter assistencial – considerada um patrimônio cultural da cidade que muito enaltecia a imagem da atividade turfística.
Cooperativa
– Também o Jockey Club de São Paulo mantinha uma cooperativa mista próxima, onde funcionários, profissionais e cooperados podiam comprar produtos básicos de alimentação e outros, a preços praticamente de custo, promovendo, sem dúvida, também um bom projeto social.
Plantel
– Já no início da década de 80, morando em Curitiba e trabalhando com meu pai, estava constantemente no Hipódromo Paulistano. Dentro da Vila Hípica, em determinados horários, lembro que era difícil atravessar as ruas – devido ao grande movimento de cavalos caminhando; uma aglomeração em que era necessário ter um cavalariço conhecido, que dava uma “seguradinha” no seu animal para você conseguir atravessar correndo. E quando levava algum cavalo para trabalhar pela manhã, ficava aguardando na entrada da pista algum jóquei amigo que tivesse alguns minutos de folga para galopá-lo – tamanha era a frenética movimentação de entra e sai de animais na pista.

Atravessar a rua era uma aventura em “horários de pico” (Foto: Porfírio Menezes)
Cocheiras
– Levando cavalos de Curitiba para correr em São Paulo, era uma conquista conseguir um boxe para o seu animal. Os treinadores amigos, muitas vezes, tinham que tirar um cavalo deles da cocheira para dar lugar ao meu. Isso aconteceu em várias ocasiões; até mesmo ouvi algumas vezes: – “Não tem lugar nem pra remédio…”. Se quisesse comprar, então, o preço era de 10 mil dólares por boxe.
Certa vez, já estagiário do Dr. Bernardo Espinhal, em visitas à Chácara do Ferreira, vi algo que não vi em nenhum lugar: – boxes de tamanho normal para um cavalo estavam divididos com parede de madeira compensada para conseguir alojar dois cavalos. E não foi em apenas um grupo de cocheiras que vi isso. E em Cidade Jardim, várias vezes, vi o quarto de ração ser transformado para dar lugar a mais um cavalo. Dá para imaginar a grandiosidade do plantel daquela época. Uma absoluta falta de espaço!

A “frenética” movimentação diária nos “trabalhos” dos bons tempos de SP (Foto: Porfírio Menezes).
Hospital Veterinário movimentado
– Também passei uma boa temporada no final dos anos 80 frequentando o exemplar Hospital Veterinário do Jockey Club de São Paulo – época do Dr. João Heckmaier e Dr. Romeu Macruz – e que tinha enorme movimento, onde para agendar uma cirurgia não emergencial era preciso entrar numa fila de semanas ou mesmo meses.
Refeitório
– Nessa mesma temporada muitas vezes frequentei o grande refeitório da Vila Hípica. Acho que era chamado de “SAPS” – se não for assim é parecido – também do Jockey Club de São Paulo, onde treinadores, cavalariços, funcionários, veterinários faziam suas refeições. Sem luxo, porém bem funcional.
Corridas
– As bonitas programações trimestrais impressas (páreos na grama em vermelho e na areia em preto) já eram uma atração aguardada; e em seis reuniões de corridas semanais com páreos cheios às segundas, quartas, quintas, sextas, sábados e domingos faziam a alegria dos proprietários, profissionais, além dos apostadores que jogavam milhões de dólares ao ano. Era tanto jogo que os proprietários passaram a receber uma percentagem das apostas em seus respectivos animais.
– As arquibancadas e os estacionamentos ficavam totalmente ocupados, não apenas em dia de GP São Paulo, mas em dias normais de corridas. Isso já era rotina desde que meu pai montava. Reflexo na premiação, a maior do Brasil e paga rigorosamente em dia.

Arquibancadas lotadas em CJ – “e não era dia de GP SP”
Leilões
E os leilões presenciais no Tattersal? Que eventos!! Praticamente semanais… onde era difícil arrumar um lugar para sentar e assistir ao leilão. Uma frequente movimentação comercial que estimulava toda a cadeia turfística.
Outros
Nem vou falar dos 8.000 sócios nos anos 90; do Centro de Treinamento da Chácara do Ferreira, do Posto de Fomento Agropecuário; do Prédio Central; de Campinas; das Obras de Arte, dos Terrenos, do Horto, Posto, Orquidário, Centro de Tratamento de Água, e outras “coisas” mais… Um patrimônio gigantesco.
Conclusão
– Enfim, o Hipódromo Paulistano era praticamente uma “cidade” importante dentro da cidade de São Paulo; e eu fui testemunha dessa época gloriosa!
Mas que fim levou tudo isso? Resposta simples: – É PASSADO…
Então, esse pequeno texto serve como uma constatação de que Cidade Jardim mudou muito. Diante do que presenciei em minha vida no hipódromo paulistano, e o que vi na última vez em que lá estive, o sentimento é de consternação e imensa tristeza. O que ocorreu no último dia 10 de janeiro com o cancelamento das corridas devido à greve dos jóqueis, algo que nunca presenciei e nunca imaginei ser testemunha, retrata bem a indignação atual. Os profissionais, mesmo nos períodos difíceis, sempre foram colaborativos e otimistas… Quando conversava com os amigos e competentes treinadores João Carlos Ávila (Barão), Elídio Pereira Gusso (Dengo) e outros, era empolgante e contagiante ver o otimismo deles: – Agora Vai…! Agora Melhora…! Porém, os últimos episódios parecem ter transformado o otimismo de alguns em unânime revolta.
– Independentemente de quem é a culpa (se é que existe algum culpado…), ou quais foram os fatores que levaram a esse triste momento – ou ainda – onde foi que esses problemas começaram…, é nítido observar que a situação vem piorando ao longo dos anos, surpreendentemente num clube que é um Cartão Postal da Cidade de São Paulo – Patrimônio Histórico e Cultural, detentor de um dos maiores complexos “Art Déco” do mundo, e localizado na cidade mais rica do Brasil. Não é de acreditar mesmo…
Algo deverá ser feito imediatamente. Se haverá tempo para reverter essa situação, só a história poderá contar futuramente.
Embora sentindo meu otimismo se “digladiando’ com meu pessimismo, realmente espero que – da mesma forma que os “Romanos” – que ressurgiram através da “República Italiana” – agora sem Império, mas com outra mentalidade e metodologia – se transformando novamente em grande força no cenário mundial, o Jockey Club de São Paulo possa, com novas atitudes (pra ontem…), ressurgir e se desenvolver; e não acabar como a extinta Sociedade Paulista de Trote da Vila Guilherme, na mesma capital. Que assim seja…
Um Texto crítico-reflexivo? De certa forma, mas não quero ser uma “pedra”, pois sei como é difícil ser “vidraça”!
Um Texto nostálgico? Claro que sim! É melhor sentir saudades no coração do que ter a realidade atual “martelando” na cabeça!
Um Texto otimista? Tentei fazer, mas não consegui, pois me faltaram argumentos que ajudassem a vislumbrar facilmente uma “luz no fim do túnel”. Mas vamos seguir torcendo…
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As crises administrativas e financeiras galopam pelos jockeys clubes e deixam sequelas às vezes e em outras ocasiões apenas tristes lembranças! Num rápido esforço de memória vamos lembrar de gigantescas crises que passaram os clubes de corridas e sem exceção! JCRS, JCB, JCPR e tantos outros tem páginas tristes na sua história. Agora é a vez do JCSP! Vamos torcer para que essa fase negra só deixem tristes lembranças e que não fechem definitivamente os portões dos hipódromos!