João Carlindo e a “Máquina” Dona Rosa

Escrevo esta matéria (a 25ª de 2025) um dia depois do Natal, e dia em que meu pai estaria fazendo aniversário. E, certamente não poderia deixar passar o 2025 – ano que se completou o período de 20 anos de sua ida aos campos celestiais – sem escrever um pouco sobre ele.

Vinte anos já? Nem parece… Certamente, é o que sempre ouço quando me perguntam há quantos anos ele faleceu. Essa impressão talvez seja pelo motivo de que seu nome sempre está presente nas rodas de conversas onde se fala de turfe.

Mas, durante todo esse período, parece mesmo que ele sempre esteve por aqui, seja nos comentários e conversas de amigos, nas corridas de canchas-retas, nas cocheiras dos quatro hipódromos oficiais e outros tantos não oficiais, nos elogios de muitos ou certamente críticas de alguns ao recordarem de seus feitos, sua personalidade, seu carisma e seu grande conhecimento quando a matéria era “cavalo de corridas”. Sempre há alguém com uma história (ou estória) para contar sobre sua convivência com ele.

Há dez anos tive a ousadia de escrever a sua biografia, onde tentei retratá-lo como turfista e chefe de família; sua trajetória, aventuras e realizações. Naquela oportunidade muitas pessoas que passaram por sua vida me disseram que além daquelas relatadas no livro, muitas outras histórias existiram das quais eram testemunhas oculares. Merecia um VOLUME 2. Agora, passados outros dez anos, nesse pequeno espaço, relembro alguns dos passos de seu caminho turfístico.

Torcedor do Vasco da Gama e do Palmeiras, João Carlindo nasceu em Meleiro, Santa Catarina, em 1936 numa família numerosa. Com o convívio com os cavalos do campo, ainda pequeno já aprendeu a montá-los em pencas da cancha reta do interior. Aos doze anos viajou sozinho a Porto Alegre para entrar na Escolinha de Aprendizes do antigo Hipódromo de Moinhos de Vento. Já mostrou qualidades desde o início passando rapidamente a jóquei no regime de “freio”.  Montou em dez oportunidades um dos melhores cavalos gaúchos de sua época: MAJOR, vencendo todas as 10 provas, inclusive o GP Protetora do Turfe, repetindo essa vitória no ano seguinte com GUAITIL.

Em 1955 foi convidado a montar MURUTI no GP Brasil, na Gávea. Não foi feliz naquela ocasião, mas ao conhecer a “Cidade Maravilhosa”, decidiu que não voltaria ao Rio Grande do Sul.

Iniciou na Gávea sua carreira como jóquei obtendo muitas vitórias, numa época em que não era fácil competir com os consagrados Luiz Rigoni, Pierre Vaz, Luiz Gonzales, Oswaldo Ulloa, Virgilio Pinheiro Filho, Dendico Garcia, Francisco Irigoyen, Lodgar Bueno Gonçaves, só para citar alguns, não esquecendo daquele que meu pai considerava seu ídolo e o melhor dentre eles… o chileno Luiz Dias (El Negro Dias).

                      J.Carlindo

Sendo um jóquei de estatura alta (1,70m) tinha muita dificuldade de manter o peso ideal para montar. Montava pouco, mas mesmo assim obteve mais de 1200 vitórias em sua carreira de jóquei.

Na década de 60, contratado por Paulo José da Costa e o ex-presidente do Brasil João Goulart, Carlindo montava alternadamente em Cidade Jardim e Gávea, obtendo sua primeira vitória nas pistas paulistas com MONALISA e vencendo, em seguida, vários clássicos com o líder de geração NARCEL. Nessa época, estava montando ao lado de João Manoel Amorim, Antonio Bolino, Albênzio Barroso, Gabriel Menezes, Antônio Ricardo, José Alves, Loacir Cavalheiro, Selmar Lobo, Clóvis Dutra e outros grandes craques da profissão. COMO TINHA JÓQUEI BOM NAQUELA ÉPOCA!

Se comentei que o melhor jóquei para ele foi Luiz Dias, não posso deixar de repetir suas palavras que o melhor amigo naquele período foi o jóquei Antonio Ricardo (pai do Ricardinho), e o melhor colega de profissão – que sempre o ajudou nas horas difíceis – Albênzio Barroso.

Carlindo parou de montar em 1970, retornando à profissão em 1972 após perder 18 quilos necessários para voltar (lembro sempre disso quando considero difícil perder 2 ou 3 quilos após as festas de final de ano…)!

CARLINDO e NARCEL vencendo a 2ª prova da Coroa Paulista – época das arquibancadas lotadas.

Em 1971, Carlindo registrou a sua farda de proprietário nas cores “verde e ouro em vertical” já comprando seus primeiros cavalos. No final de 1972 não mais aguentando a “pressão da balança”, numa “reunião noturna”, pendurou definitivamente o chicote após vencer de cabeça a um cavalo pilotado pelo extraordinário Gabriel Menezes onde, na volta, desmaiou na repesagem por perder quase seis quilos durante todo o dia para conseguir montar à noite.

A partir daí investiu na profissão de comércio de cavalos de corrida, buscando animais no sul do país e levando-os para a Gávea e Cidade Jardim para vendê-los. Como a mercadoria era boa e vencia constantemente nas pistas, os compradores ficavam muito satisfeitos, o que lhe rendeu bons lucros e muita fama. Naquele período tinha como grandes clientes Attilio Iurulegui e João Jabour, mas também comercializou animais para Cristal, Tarumã, Goiás, Mato Grosso, canchas-retas, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Uruguai e Argentina.

Sempre ativo junto à crônica turfística participava frequentemente dos programas de rádio e televisão da época; e como uma pessoa muito comunicativa foi convidado a participar do Programa Silvio Santos, do filme “Pista de Grama” e, por intermédio do ator e amigo Lima Duarte, fez algumas “pontas” na novela Beto Rockfeller onde contracenou com Luiz Gustavo, Beth Mendes, Ana Rosa, Maria Della Costa entre outros, sempre protagonizando um homem do turfe.

Sim… na época o turfe era um verdadeiro sucesso que merecia fazer parte do cotidiano dos brasileiros.

João Carlindo e o elenco de “Beto Rockfeller” em CJ

JC mudou-se para Curitiba em janeiro de 1973, pois a cidade ficava no meio do caminho entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, o que facilitava o transporte dos animais e a sua própria locomoção entre os locais onde buscava e onde entregava a sua mercadoria equina. Também montou um haras na região metropolita de Curitiba, onde recriava potros adquiridos desmamados para posteriormente revendê-los após criados, algo inédito na época.

No final da década de 70 e início de 80 já estava selecionando potros e os adquirindo para ele mesmo. Seu sucesso aumentou ainda mais, pois além de seu “olho clínico” em descobrir talentos podia orientar ele mesmo o treinamento mais adequado para cada um deles. E assim estava sempre presente nas estatísticas e jornais dos quatro maiores hipódromos nacionais colhendo resultados totalmente fora da lógica do pedigree dos seus animais. Uma das definições que ganhou foi de “GENIO DO TURFEAquele que faz algo que na hora a gente acha loucura, mas que depois dá certo” – por Renato Gameiro.

JC venceu provas de graduação máxima em todos os hipódromos e canchas retas do Brasil, além de 53 recordes de distância. Entre muitos foi assim com EMPIRE DAY (Maniatao-ARG e Kitle por Arlequino II), líder invicto de nove vitórias inclusive a Taça de Prata G1 de 1984, ou com a máquina DONA ROSA (Galesian-GB e Irabem por Cortijo-CH), uma das melhores éguas de velocidade em todos os tempos, que venceu por todas as canchas-retas pelas quais passou.

Empire Day (A.Bolino “up”)

Sua vertiginosa prosperidade causou também indignação e revolta naqueles que não conseguiam o mesmo sucesso no turfe, mesmo investindo grandes somas financeiras. Assim João foi também vilipendiado por alguns (pelas palavras do próprio JC – “DOR DE CORN…” de muitos com o sucesso alheio). Em contrapartida, muitos haras importantes daquele período tentaram contratá-lo, inclusive teve um convite para treinar nos Estados Unidos, algo inimaginável na época. Porém, estava feliz com a sua condição, e dentro da sua humildade preferiu continuar com o seu jeito simples e caseiro treinando seus cavalos, e recebendo os vários amigos em sua cocheira número 36, no Tarumã, para um delicioso pernil de porco assado, uma caranguejada, um churrasco ou os vários tipos de “frutos do mar” que fazia. Sim… João Carlindo também era um mestre na cozinha.  Algumas vezes viajou de Curitiba a Itajaí, São Paulo, Ponta Porã e outras cidades apenas para cozinhar a convite dos amigos.

Na Argentina num reencontro com Luiz “Negro” Dias (1985)

Por falar em amigos – tinha muitos, mas não poderia deixar de citar Guido Pelanda, a Família Brunatto Franceschi, Agostinho Silvestre, Ciro Frare, Alceu Athaide, Antonio Ricardo, Henrique e  Homero Oliva, Pedro Carregari Filho, Cid Campelo (pai e filho), Selmar Lobo, Walfrido Garcia, Francisco Farias de Souza, Alcibiades de Almeida Faria Neto, Ubaldo Siqueira, Família Amatuzzi, Família Ávila, Clovis Dutra, Roberto “Tajarim” de Oliveira Filho, Duilio Berleze, Ari Perez, Jael Bergamaschi Barros, Dalton Mehl, Osvaldo “Ratinho” Maria Gomes, Dengo Gusso, Roberto Faria, Alcides Morales e tantos outros bons amigos que fez em sua trajetória de vida onde muitos colaboraram com ele.

Enfim, um homem “madrugador” que nunca tirou férias, ótimo cozinheiro, bom marido, pai e avô; amigo dos amigos, com pouco estudo, mas dotado de absurda inteligência; de “olho clínico” invejável para descobrir cavalos campeões, e com o dom de enxergar a alma dos cavalos.

Aprendi muitas coisas com ele, mas dentro do turfe o principal foi que: – Para conseguir sucesso neste meio é preciso trabalhar, e que é primordial seguir o lema “Esperto…sempre, desonesto…nunca”!

Vinte anos fisicamente sem João Carlindo, muito embora certamente ele ainda viva entre nós, pois enquanto existir alguém que fale sobre ele – relembrando seus gloriosos feitos e histórias – ele nunca morrerá!

Um Feliz 2026 para todos os amigos do turfe!

galopando.com.br

Apoio:

       

Haras Cifra            Haras H.Oliva

       

Haras Belmont      Haras Rio Iguassu

       

Stud Dom Pepe      Top Tarumã Stud