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Em minhas andanças pelo turfe, em mais de 50 anos, onde já vi e ouvi muita coisa, algo que me recordo ter visto, apenas uma vez, foi uma chamada impressa de uma penca, que explicitamente excluía os animais de criação de um determinado haras, ou mesmo os potros filhos de determinado garanhão desse haras. Tal decisão era baseada, pelo simples fato, de serem os animais do Haras Francine, quase que imbatíveis nessas provas, o que afastava os adversários das mesmas; e como se diz no meio – “estragavam as pencas”. – Ninguém jogava contra!

Francisco Farias de Souza, fazendeiro, pecuarista – mas um homem muito simples, com o seu Haras Francine, em determinada época, ganhava todas as pencas em que participava. Francisco e seu filho Nelson Farias de Souza percorreram e venceram em praticamente todas as maiores canchas retas do Brasil. O popular CHICO SOUZA foi, e talvez ainda seja considerado por muitos como – o REI DA RETA.

FRANCISCO FARIAS DE SOUZA

Certamente, Chico Souza participava das canchas retas, como se diz… “desde sempre”, porém o conheci na década de 70, visto que era muito amigo de meu pai, com um relacionamento próximo entre as famílias; e de lá para cá fui testemunha de algumas de suas “proezas”. No início, apenas como proprietário, era um forte comprador, adquirindo constantemente animais para participarem das pencas que tanto gostava. Adquiriu, entre outros, BIRRO (1974 – Tamino-GB e Frigia por Melody Fair-IRE) de criação do Haras Rosa do Sul e campeão de pencas: 1º GP Cidade de Carazinho (correndo três “batidas”), 1º Penca de Vacaria, 1º Penca de Lagoa Vermelha, 1º Penca de Itapetininga – em recorde; e no Tarumã foi 1º no GP Delegação do Jockey Club de São Paulo – Prova Velocidade do GP Paraná 1978, além de outras 3 vitórias em Cidade Jardim – mantendo-se invicto. Um cavalo famoso pela sua velocidade, que inclusive, foi citado pelo ator Lima Duarte, em um dos capítulos da novela Roque Santeiro de 1985, como um sinônimo de velocidade.

Campeão BIRRO e seu treinador José Gulart (Memórias da Cancha reta)

Outros animais, que rapidamente lembro os nomes, adquiridos por Chico Souza que foram bons penqueiros e ganhadores: AUDITORA (Napo-Arg) e AFORADO (Pinhal) de criação do Haras Centenário; o clássico LR e recordista BACCO (Tamino-GB), do Haras Rosa do Sul; o Grupo 3 ARQUITETO (Tamino-GB)– vencedor do GP Delegação do Jockey Club de São Paulo – Velocidade do GP Paraná 1977; EL KIRI (Eli Kan-ARG) do Haras Nova Vitória – penqueiro Fórmula 1;  as clássicas LR – HEDERAT (Tonnerre), BATIZE (Flying Boy-GB), HIT SONG (Millenium-GB) também foram boas aquisições. ENDEREÇADO (Restless Jet-USA) adquirido do Haras Santa Amélia foi outra “máquina” de Chico Souza nas retas e que posteriormente veio para o hipódromo onde venceu o Clássico Presidente Carlos Paes de Barros – LR e o GP Velocidade em Campo Grande/MS; QUESTION MARK (Flying Boy-USA) adquirido do Haras São Miguel de Arcanjo também venceu a penca Cidade de Carazinho e foi líder da geração no Tarumã (1º Clássico Manoel Ribas). Chico Souza também importou da Argentina algumas éguas como a “máquina” PAREJERA (Make Traks-USA) – 7 vitórias em 8 apresentações, tendo vencido o Clássico Linneo de Paula Machado – Inauguração do prolongamento da reta de chegada no Tarumã e SPARTA’S SUN (Solazo-USA e Olympe-ARG por Carapálida-ARG) grande ganhadora de pencas e invicta no Tarumã e Cidade Jardim).

ARQUITETO – seguro por Carlos Carlindo e Nelson Farias de Souza (1977)

Todas essas vitórias citadas no Tarumã e Cidade Jardim foram aos cuidados de João Carlindo, que como já disse, tinha ótimo relacionamento com Chico Souza e fez vários negócios de compra e arrendamento de animais deste para trazê-los ao prado, já que o “Rei da Reta” era claramente um adepto inconteste das provas regionais de velocidade e não sendo muito “simpático” às corridas “pela volta” dos hipódromos oficiais. Assim a parceria nos hipódromos, entre “Tio Chico” e “Tio Carlo” (como se tratavam) – foi longa e produtiva.

ENDEREÇADO (Ivanir Rocha “up”) em Campo Grande – MS

Logicamente, todos os animais de Francisco Farias de Souza tiveram campanha nas canchas retas, vencendo muitas pencas em todo o Brasil, antes de virem para o hipódromo aos cuidados de meu pai.

Mas, a história de Chico Souza nos hipódromos não poderia ter começado diferente do que em uma penca. Foi na realização da primeira penca realizada no Tarumã em 1974 – o GP Primeiro Centenário (precursor do GP Turfe Paranaense) em 700 metros. Numa parceria com meu pai foi inscrito BARONE (Twinsy-USA e Nimara por Orbaneja-IRE) de criação do Haras Santarém, que venceu a seletiva e chegou em terceiro na final para Norne do Haras Palmital.

No ano seguinte (1975), o 1º GP Turfe Paranaense teve 240 inscrições com 55 confirmações e entre elas estavam os animais PACO RABANNE (George Raft-USA) de criação do Haras Rio dos Papagaios; BRIL (Queisto) de criação do Haras Bom Pastor; e TIASSE (Tuyuti-ARG) de criação de Mário Tavares Moglia – todos de propriedade da parceria Chico Souza/João Carlindo. A vencedora da final foi TIASSE (conhecida na reta como “Princesinha”) com a futura craque URBE a segunda posição.

A ganhadora voltou para a cancha reta, enquanto os outros dois ficaram na cocheira de meu pai no Tarumã. BRIL foi clássica de LR; e PACO RABANNE, levado ao Cristal foi ganhador clássico, líder de geração, recordista dos 1.609m e 3.000m (recorde ainda em seu poder), obtendo no total 10 vitórias (LR), 3 segundos (G3) e um quarto lugar (LR) entre Cristal e Cidade Jardim em 14 atuações.

BARONE (S.Barbosa) – Estreia da parceria Chico Souza/J.Carlindo nas pencas (1974)

Na sequência Chico Souza venceu ainda o Turfe Paranaense em 1979 com ELVIC – em parceria com J.Carlindo -; em 1982 com FLYING DULCE; em 1987 com GAROTO LINDO; em 1988 com IDYL e chegou segundo em 1978 com EL KIRI e em 1990 com JUZ CENTERO.

Chico Souza, com o seu Haras Francine, localizado no município de Palmas, na região centro-sul do Estado do Paraná, a 374 quilômetros de Curitiba, oficializou a sua criação em 1978 com poucas éguas, mas a partir de 1979 já mantinha 40 reprodutoras em sua área. A maioria em linhas de velocidade (Tamino-GB, Flying Boy-GB, Solazo-USA, Make Tracks-USA, Millenium-GB, Flash Gordon, Napo-Arg, etc.).

      HARAS FRANCINE

Manteve como reprodutores vários cavalos que em campanha deram muitas alegrias ao seu proprietário, como o já citado BIRRO, que lá produziu diversos ganhadores de pencas e dos hipódromos, como CIMBALO – 4 vitórias (CJ) em 6 corridas – 3º GP Proclamação da República G1 (CJ); EROI – 1º Clássico Augusto de Souza Queiróz (CJ), 1º Clássico Atualpa Soares (GV), 1º GP Reprodutores do Paraná, 1º PE Raphael de Barros Filho –líder de geração; EKO FORTE – 1º PE Raphael de Barros Filho (CJ); FRANCIS BRILHO – 26 vitórias (5 GV, 19 CJ, 2 CR); FRENTISTA – 8 vitórias; CONCORDE – 7 vitórias; GINGA-LO – 6 vitórias; COCINELLE – 6 vitórias, e vários bons “penqueiros” como EL BIRRO, EL PAREJO, CORAÇÃO ALADO, CATY GIRL, DADDY PRINCIPE, DEYDY, entre outros. Em determinada época em algumas canchas, os filhos de BIRRO não eram aceitos para correr de tão velozes que eram.

PACO RABANNE (George Raft-USA e Gloria-URU por Manolo-URU) foi outro reprodutor que atuou no Haras Francine e que lá produziu bons animais, como BONAERGE – 8 vitórias, 1º GP Alfredo Silvio Colle (TR) – clássico no Tarumã e Cristal (também reprodutor no Haras Francine); GAROTO LINDO (1º GP Turfe Paranaense);  BRAGANTINA – 6 vitórias, 1º GP Alexandre Gutierrez (TR); DON RABANNE – bom “penqueiro” de 6 vitórias; COSMONAUTA (clássico no Tarumã), EILON PRINCIPE – 6 vitórias em 8 corridas, entre outros.

PACO RABANNE ao vencer clássico no Cristal

ONIAS (Tamino-USA e Fanciulla por Race Horse) dotado de grande velocidade foi levado à reprodução no Haras Francine produzindo também vários penqueiros.

EL KIRI (Eli Kan-ARG e Ilama por Svengali) foi outro grande penqueiro que Chico Souza levou para a reprodução onde produziu, entre outros IMPIUS (Grupo 3), HABIL GAJO (invicto), HABERITA (7 vitórias), além de inúmeros ganhadores de pencas.

QUESTION MARK ((Flying Boy-USA e Foggy Bell-GB por Aggressor-GB foi outro campeão de pencas e líder de geração no Tarumã que serviu como reprodutor no Haras Francine.

Um dos cavalos mais bonitos que conheci e que tivemos em nossa cocheira foi CIMBALO (1980), filho de duas máquinas da velocidade: BIRRO e PAREJERA-ARG. E não decepcionando Chico Souza foi também muito veloz. Penqueiro nato, venceu importantes pencas e no prado obteve 4 vitórias em 6 corridas. E, certamente, foi também servir como reprodutor no Haras Francine, transmitindo muita velocidade aos filhos, que em sua grande maioria foi destinada à cancha reta. No Tarumã correram JUZ CENTERO (2º Turfe Paranaense 1990) e IMPERADOR MOR (2º na Penca Taça Paraná 1989).

         CHICO SOUZA com CIMBALO

Fugindo um pouco dos reprodutores do Haras Francine, lembramos do animal EL TIEMPO (Cavo D’Oro-IRE e Term Time-GB por Sing Sing-GB) também de criação do Haras Francine que venceu a tradicional penca TURFE GAÚCHO em 1984.

Após o falecimento de Francisco Farias de Souza, o Haras Francine seguiu funcionando por mais algum tempo com a administração de sua esposa Alcidália Ferreira de Souza, que seguidamente participava das pencas pelo Brasil com os seus animais, sendo festivamente recebida em todas as canchas e homenageada, em várias ocasiões na cancha reta que a reconhecia como uma das “damas da cancha reta brasileira”. A turfista Alcidália também venceu várias pencas, entre elas o GP Turfe Gaúcho de 2005 com o cavalo ORNADO (Punk-Arg e Antenada por Foyt-USA), prova em que era homenageada, e com o treinamento do antigo treinador dos animais de seu CHICO – José Gulart e veterinário Dr. Marçal Silva.  Também com o falecimento de Dona Alcidália, teve fim um dos grandes haras produtores de velocidade do Brasil.

D. ALCIDÁLIA com ORNADO após vencer o Turfe Gaúcho 2005

Enfim, esse é um resumo que presenciei da história do paranaense Haras Francine – de Palmas-PR, cidade que hoje possui uma rua nominada de Rua Francisco Farias de Souza. Um homem importante na cidade e gigante para a cancha reta nacional, local que CHICO SOUZA dava enorme importância, pois se perguntassem a ele, se preferiria ganhar o GP Brasil na Gávea, ou uma penca no interior do país – todos já saberiam antecipadamente a resposta.

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